Ser humano é muito bicha

Como é que se vira homem?
Ora, mentindo.
Olhando no olho.
Dizendo, descaradamente:
Como muita mulher!
Não broxo, não arrego, não vacilo! Dou duas sem tirar; no mínimo.

Minha mãe não lava minhas cuecas!

Homem entende, ganha, manda, dá as cartas.
Nunca chora sozinho olhando a chuva. Que tipo de maluquice é essa?

Homem mostra! Nunca assiste.
Nunca é um idiota; um qualquer.
Quando tolo, sozinho e estúpido,
transforma isso tudo em nobreza, da mais fina.

Homem que é homem arrepia!

Se lê poesia, dá o cu e gosta.
Se as escreve!? Aí dá o cu e goza!

Ser homem é qualquer coisa.
Menos ser humano.
Porque, convenhamos,
ser humano é muito bicha!

Realidade meia boca

Sentado no sofá, na sua hora e quinze de intervalo, puxou o jornal dobrado sobre a mesa. Não costumava fazê-lo, achava enfadonho o ato de ler jornais. Afinal não havia ali nada, senão notícias, coisas que aconteceram ou que provavelmente aconteceriam. De que lhe servia isso? Se dois desconhecidos haviam batido o carro e morrido, ou não. E se fossem conhecidos, também, de que lhe adiantaria saber? Em meia hora havia de bater o ponto e voltar ao labor escroto que pagava suas contas. Após o fim da jornada havia de correr até a lotérica pagar algumas delas, inclusive. De que lhe adiantava saber se a gasolina ia subir, ou quem estava na frente na corrida política? Se havia de subir, que subisse. Quem houvesse de vencer, que vencesse.

Mesmo assim, movido pelo tédio inabalável que por vezes o arrebatava, abriu o jornal, num ato estúpido, de tão inconsciente.

Havia uma notícia sobre um menino sírio que foi encontrado morto numa praia na Turquia. Seus pais estavam fugindo da Síria e o barco afundou. Até aquela notícia o oprimia, pois não podia sentir-se um pobre diabo, como estava habituado a sentir-se. Afinal, ele estava ali, sentado, empregado, lendo um jornal, enquanto pessoas perdiam seus filhos afogados na tentativa de fugir da guerra e levá-los para algum lugar seguro num ato intenso, real, de desespero e coragem.

Pobre dele. Estava morto. Inerte. Não o deixavam sequer achar sua vida um lixo. E ele próprio não conseguia ver nela nenhum fio de brio e privilégio.

Não pode haver paz dentro de tamanho absurdo e de tão implacável pacatez.

Perfeição

A graça de dirigir está nas curvas, não na reta.










O sorriso orquestrado,
os dentes morbidamente brancos,
a expressão intimidante
que distancia o objeto,
do admirador.

Um ser que confunde.
Desafia a nossa lógica.
Nos aprisiona alguns segundos.
Nos faz pensar: "Será?"
"Existe?"

Mas não pode.

Não é mais mulher.
Não é mais humana.
Não é mais real.
E por por ser tão fantástica
perdeu a graça.

Merry Go 'Round

And I go
'round
and 'round
in this wicked
merry go 'round.
Its pace is slow.
Like something
which don't want
to stay,
but don't want to go.
It stamped me with a blur
of blood in the neck.
And my destiny
is now evilly sure.
It's round.
And flat.

And I can't stop.
I just can't
stop.
And I don't want to go.
But there is a flow
'round
and 'round.
And there is no way out
from this vicious
merry go 'round.
'Cause it goes
'round
and fucking 'round.
Every fucking night.
Not happy enough to laugh.
Not sad enough to cry.

And the buildings
remind me,
while I go
'round
and 'round,
that everything falls off.
And the city lights
remind me
that everything
turns off.
And the streets
that leads my bones
always remind me
that I don't feel at home
anytime,
anywhere.

And everything is fading
while I go 'round
and 'round.
The gasoline.
The cigarettes.
The money.
The night.
The time.
The body.
The sanity.
But something stands
hiding in a lair
that anyone found.
A demon of the night.
This fucking
merry go 'round.

Coisa Ruim

Você
que eu não quero mais ter.
Não "você", você... Mas você!
Esse você que todos tem;
que todos parecem saber quem.
Sempre um alguém;
um outrem.

Deixem esse pessoal em paz.
Não é paz que querem
em vossos corações
carentes, e arrependidos, e tolos?

Não sois vós os manjadores?
Os que decoraram a tabela do certo e errado?
Os que tem "atitude" quando a tendência é falar em
Atitude.
Os que silenciam quando a moda é dizer que
"Silêncio faz bem"?

Olhe pra dentro, e aguarde.
Quando um dos seus demônios aparecer
          e nós sempre aparecemos
E sorrir pra você
          e nós sempre sorrimos
Não tente expulsá-lo.
Porque ele não vai ir embora.
          Nós nunca vamos
Sorria de volta.
Aperte sua mão.
E faça as pazes com ele.

Viadagem e Mastodontes

As vezes os pelos do meu braço arrepiam;
e depois a barba.
A nuca é mais difícil; mas acontece.

Isso tudo
no contato com alguma sutileza.
Num poema, numa música, num filme.
Às vezes num silêncio, num espaço.
Numa simples quebra
de linha.


Mas é raro.

Um homem não deveria sentir isso,
dizem os mastodontes; às vezes um ou outro
motoqueiro.

Eu mesmo o diria se fosse sexta à noite,
se fosse um bar,
e eu estivesse de jaqueta de couro
e botas.

Mas é quarta à tarde.

E eu sei que sua casca grossa
parte-se em mais de mil pedaços,
ao fim de toda madrugada
interminável.

Mas fica entre nós.

Meus boletos estão todos pagos


Quantas vezes já derramei vodka na jaqueta?
Quantas vezes!
Derramei por estar bêbado; Não pelo copo estar muito cheio.

Sem desculpas esfarrapadas.

Deixemo-as para amanhã cedo.

Derramei na jaqueta, no inverno.
Na camisa, no verão.
Nos sapatos derramei o ano todo.
Nunca nos outros, porque sou culto.
Só às vezes, porque sou cretino.
Porque sou os dois.

Quantas vezes olhei para uma mulher,
que todos sabiam o nome, menos eu, e pensei:
Você nem é tudo isso!
Ou ainda:
Grandes bosta!

Outros se derretiam em desejo.

Nestes momentos, quantas vezes olhei para o lado
à procura do garçom.
Ele eu conhecia pelo nome; e ele sorria.

Quantas vezes tudo ficou mais fácil
depois de não dever nada a uma mulher?
E então, depois disso,
de não dever nada à nenhuma das outras mulheres do mundo.

Tornearia




















Fosse parte integrante
Dos que nunca pestanejam,
Não seria petulante
Permitir que entrevejam
A maneira cordial,
Sem apelo canibal,
Com que olhos arregalas,
E que as moças encurralas.

Não tem jeito que estilhaça,
Nem presença que ameaça.
Mas há quem se satisfaça.
Até quem se liquefaça!

Não se faz só vergalhão
Dentro da tornearia.
Também se faz corrimão
Pra pegar na mão macia.
Seria atrevimento
Passar de divertimento?
Qual a altura da queda
De um amor que se veda?

Coração não é enfeite.
É bom que logo se aceite.
Quando vier, espreite; Suspeite.
Mas quando tiver, respeite.

Espaço















A brisa fresca, no inferno da tarde.
O beijo morno, na noite estúpida.
"Ah, um café! Ah, um cigarro! Ah, um feriado!"

Se se alegras num instante ameno,
Que dia penoso há de surgir no horizonte!
Quanta cinza ainda vai aspirar.

Se ao menos pudesse me deleitar plenamente na ilusão.
Olhar na cara do vazio e não ter náuseas.
Mas sempre há esse som...
O som do vento! Só do vento...
Dizendo: "Vês? Não há nada!"
''O problema é que nós sempre confundimos a ideia de amor com apego. Sabe, nós imaginamos que o apego e o agarramento que temos em nossas relações demonstram que amamos, quando na verdade, é só apego que nos causa dor.Porque quanto mais nos agarramos, mais temos medo de perder. E então se nós, de fato, perdermos, vamos sofrer. O que eu quero dizer é que o amor genuíno é... Bem, o apego diz: ''Eu te amo, por isso eu quero que você me faça feliz.'' E o amor genuíno diz: ''Eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo! Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade.'' É portanto um sentimento bem diferente. Sabe, o apego é como segurar com bastante força. Mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam. Não é ficar preso com força. Quanto mais agarramos o outro com força, mais nós sofremos. Porém é muito difícil para as pessoas entenderem isso, porque eles pensam que quanto mais elas se agarram a alguém, mais isso demonstra que elas se importam com o outro. Mas não é isso. Elas realmente estão apenas tentando prender algo porque elas tem medo de que se não for assim, elas é que acabarão se ferindo. Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro será certamente muito complicado.Quero dizer que, idealmente, as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas e ficarem juntas apenas para apreciar isso no outro, em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem estar que elas não tem sozinhas. E isso gera muitos problemas. E isso junto com toda a projeção que vem do romance, em que projetamos nossas idéias, ideais, desejos, e fantasias românticas sobre o outro, algo que ele nunca será capaz de corresponder. Assim que começamos a conhecê-lo, reconhecemos que o outro não é o príncipe encantado ou a Cinderela. É apenas uma pessoa comum, também lutando. E a menos que sejamos capazes de enxergá-las, de gostar delas, e de sentir desejo por elas e também ter bondade amorosa e compaixão, será um relacionamento muito difícil.''
(Jetsunma Tenzin Palmo)