Colheita

 É o diabo quem fala em mim.


Alguém afia a foice na penumbra.

Me aproximo.

Sou eu.


Medo

Estou perdido.
Mas ainda lúcido.

Talvez me veja perdido por estar lúcido.

Minha identidade foi construída ao acaso,
aos tropeços dos anos.

Mas sempre um algo aquém da minha essência.

Sempre uma máscara esculpida ao sabor dos afetos;
ao sabor dos encontros e desencontros com o mundo;
sempre se moldando com inacreditável flexibilidade;
sempre passivamente aceitando o formato que a vida
ao menos parecia
impor.

resultando numa careta torta; um estorvo na cara.

A carcaça, o peso, essa carniça que me fede nos ombros
sou eu
Um eu que não é, que nunca foi e que nunca poderia ter sido
Mas que parecia um eu aceitável, um eu digno, um eu...
Um eu mais fácil de engolir.

Talvez pros outros, e pro mundo, e pros valores do mundo.
Mas pra mim, pra mim nunca desceu.

Ao silêncio possível da noite urbana,
ao fechar das cortinas, ao abrir de um livro
Meu íntimo suplica pela sua aurora.

Lucky Mammal

The problem is
You are aware of hundreds of paths
You know tons of possibilities
You are into a sea of potentialities
And that is the reason why you will never be enough.
ever.
So, stop trying.

Just go with your guts.
Trust your instinct.
Do not overthink.
Make the choices.
Live with them with no guilt!
Well, sometimes guilt may show up...
Then forgive yourself for being wrong.
Or say sorry for being an asshole.
Then move on!
Take the path that seems right.
Embrace the possibilities that fits you.
Explore your potentialities with joy.
Let your nature drive you a little more.
After all,

You are just a fucking lucky mammal!

Melhor deixe

Não tem coisa que dê mais trabalho do que a gente mesmo.
Aí tu pensa
"Mas nem dá"
"Mas sou preguiçoso"
"Mas eu não faço nada"
É.
Mas não faz nada por quê será?

É a fuga de você mesmo, de não se envolver contigo.
Porque isso aí dá trabalho. Exige.
Ficar deitado imóvel; horas no scroll down;
Vendo o rolê alheio, a vida do outro.

Crítico pra caralho você.

É bem mais fácil, né?
"Porque se fosse eu faria assado."
Faria nada. Taí deitadão. Xbox chega tá quente.

Role playing.

Porque a tua vida mesmo... pxxxx
Dá trabalho.
Cobra preço.
Gera consequência.
Gera frustração.
Já pensou?
Ter que tentar?
Se pá ter que ver dar errado?
Ter que lidar?
Nossa.

Melhor deixe.

The tree on the horizon

There is a tree on the horizon;
There is the sky behind the tree;
and there is a mistery.

Such a peaceful and scary mistery
that makes me stop, and look;
even without understand.

And when I start to wonder,
'cause that is all we can do,
I get tired.

Then sometimes I forget to wonder
and it gets me again.

Potential

- Why don't you do something?
- What do you mean?
- I don't know.
- What does that mean, "why don't I do something?"
- Isn't there something you wanted to do? Isn't there something you wanna do?
- Like what?
- I don't know. You're good at so many things. You could do anything you wanted to do, you're good at everything that you do. Isn't there something else you wanna to do?
- Than what? To be your husband, to being Frankie's dad? What do you want me to do? What-what-what... in your, like, dream scenario of me, like, doing what I'm good at, what would that be?
- I don't know. I just... you're so good at so many things. You can do so many things. You have such capacity.
- For what?
- I don't... you can sing, you can draw, you can... dance.
- Listen, I didn't wanna be somebody's husband, okay? And I didn't wanna be somebody's dad. That wasn't my... goal in life. For some guys it is - wasn't mine. But somehow I've... it was what I wanted. I didn't know that. And it's all I wanna do. I don't want to do anything else. That's what I want to do. I work so I can do that.
- I'd like to see you have a job where you don't have to start drinking at 8 o'clock, in the morning, to go to it.
- No, I have a job that I *can* drink at 8 o'clock in the morning. What a luxury... you know? I get up for work, I have a beer, I go to work, I paint somebody's house - they're excited about it. I come home, I get to be with you. What's... Like, this is the dream.
- Doesn't it ever disappoint you?
- Why? Why would it disappoint me? I could still do whatever I could do.
- Because you have all this potential.
- So what? Why do you have to fucking make money off your potential?
- Look, I'm not even saying you have to make money off it. Do you miss it?
- What does potential mean? What does even potential mean? What does that mean "potential"? Potential for what? To turn it into what?

(Blue Valentine, 2010)

A Brief History of Suffering

“According to Buddhism, the root of suffering is neither the feeling of pain nor of sadness nor even of meaninglessness. Rather, the real root of suffering is this never-ending and pointless pursuit of ephemeral feelings, which causes us to be in a constant state of tension, restlessness and dissatisfaction. Due to this pursuit, the mind is never satisfied. Even when experiencing pleasure, it is not content, because it fears this feeling might soon disappear, and craves that this feeling should stay and intensify. People are liberated from suffering not when they experience this or that fleeting pleasure, but rather when they understand the impermanent nature of all their feelings, and stop craving them. This is the aim of Buddhist meditation practices. In meditation, you are supposed to closely observe your mind and body, witness the ceaseless arising and passing of all your feelings, and realise how pointless it is to pursue them. When the pursuit stops, the mind becomes very relaxed, clear and satisfied. All kinds of feelings go on arising and passing – joy, anger, boredom, lust – but once you stop craving particular feelings, you can just accept them for what they are. You live in the present moment instead of fantasising about what might have been. The resulting serenity is so profound that those who spend their lives in the frenzied pursuit of pleasant feelings can hardly imagine it. It is like a man standing for decades on the seashore, embracing certain ‘good’ waves and trying to prevent them from disintegrating, while simultaneously pushing back ‘bad’ waves to prevent them from getting near him. Day in, day out, the man stands on the beach, driving himself crazy with this fruitless exercise. Eventually, he sits down on the sand and just allows the waves to come and go as they please. How peaceful!”

― Yuval Noah Harari, Sapiens: A Brief History of Humankind

O caminho

Dizem para caminhar.
Tu, mais parado que estrela;
útil feito sombra na noite.

E apontam aonde chegar.
Bússolas pro norte da vida;
dedos que desatam nós;
tão perdidos quanto nós.

O destino a se alcançar.
Como quem despreza a estrada.
Se o que importa é chegar,
então é melhor correr.

"Cuide pra não se perder!"
Como se houvesse um caminho.
Como se eu fosse andar
como quem não vai morrer.

O bonde

Pegaste o bonde andando!
Nunca esqueça-te disto!
O bonde vem melancólico
de longe;
de sempre.

Sempre abarrotado de solidão.
Sempre em velocidade incômoda.
E, mais importante,
Sempre indo
reto;
a diante.

Sempre cheio de gente que,
assim como tu,
Pegaram-no andando.

Todos carga inocente.
Todos peso incapaz.
Esse nosso destino:
Seguir complacentes
em velocidade incômoda.
É isso ou é nada.
Só tem o bonde.

Natureza

O contato com a natureza
sempre apequena;
sempre machuca.
A mata arranha,
os mosquitos picam,
o chão fere os pés,
a água afoga,
o barulho das cachoeiras
cala tua voz.

Não somos mais bem-vindos.
A negamos.
Somos desertores;
alheios;
estrangeiros;

Construímos nossos pequenos oásis,
de pedra e eletricidade,
e, tolamente, nos emancipamos.

O Que Restará de Ti (Il Restera de Toi)

O que restará de ti
É tudo aquilo que deste,
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados.

O que restará de ti,
E de teu jardim secreto,
É uma flor esquecida,
Jamais fenecida;
E tudo que deste,
Nos outros, florescerá.
Pois aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

O que restará de ti
É tudo que ofereceste,
De braços abertos,
Numa manhã ensolarada;
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada;
E tudo que sofreste,
Nos outros reviverá.
Pois aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

O que restará de ti;
Uma lágrima caída,
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração.
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade;
E tudo que semeaste
Nos outros germinará.
Pois, aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

Il Restera de Toi - Michel Scouarnec
Tradução livre de Miguel Falabella

Êxodo

Deserto é só certeza.
É caminhar inconsciente.
É impossibilidade.
É morte inesquivável.

A cidade é no deserto.

Mas cidade é miragem.
É caminhar distraído.
É impossibilidade esperançosa.
É morte impossível.

Tem gente que vê um outdoor e corre feito um beduíno com sede.

Um morre.

O outro se distrai,
Daí morre.

Will

We're the lazy summer.
We're the quiet hounds.
We're retired bank robbers
In a ranch away from town.

We're the hundred years tree.
We stand still alone.
We're the old men on asylums
assuming we've seen it all.

Esperança

O que queremos, afinal? O que tanto queremos que nos faz levantar todo dia e tentar ser alguma coisa sempre meio igual a sempre ou sempre meio diferente de sempre ou sempre meio normal que quer ser meio esquisita ou meio esquisita querendo ser mais normal, ou... Tá me entendendo? O que tanto queremos? A gente acorda todo dia! E vai! Todo dia! Mas vai aonde?

Uma pessoa de 80 anos foi! Todo dia, cara! No total ela foi 29.200 vezes! 29 mil!!! Ela tentou vinte e nove mil vezes! Mas tentou o que? O que é que esse senhor tanto quer, gente?


Onde Satanás afrouxou a gravata

A estrada os apunhalava com mais.
O horizonte nunca havia os entregue tanto.
O novo cortava por entre seus cabelos;
encharcava seus pulmões.
E eles riam de medo.

O que era mito, já não é.
Feito paisagem entre cortinas,
se exibia, solene, um mistério.
E o fim de tudo parecia como aquilo.
E eles riam de coragem.

Que dia!

Um estrondo e cacos voando fizeram com que caísse, das alturas dos seus pensamentos  (não tão altos assim), sentado no banco do carro. Já estava quase no trabalho e não tinha sequer se dado conta, até que um acidente de trânsito o sugou para a realidade. Acordou, beijou o mulher, disse bom dia/te amo/qualquer-coisa-dessas-razoáveis, lavou o rosto, lavou os dentes, mijou, colocou o pau pra dentro da calça, aquela última gotinha molhou sua cueca, saiu sem tomar café como de praxe, ligou o carro, ligou a música, abriu o portão, fechou o portão... Mas não notou nada disso. Porque era o que fazia sempre, desde que se lembra. Na verdade nem lembra, nem pensa, nem importa. Mas era o que fazia e faria. Sabia disso, mas não pensava, não importava. Importar até importava, mas não pensava.

Passou lentamente pelo acidente. Não por segurança, mas porque queria ver. É bom ver acidente. Ele gosta. Passou pelos carros batidos, ninguém morto. Acelerou um pouco mais porque precisava chegar ao trabalho logo e contar para as pessoas. Era um homem de sorte, havia visto um acidente. Algo havia acontecido em sua vida. E não foi meramente "passar por um acidente", ele viu, na hora que aconteceu! Diria "Eu vi bem na hora!" Que dia, amigos! Que dia!


às vezes, simplesmente acaba

entranhas
que ora forjaram nada
que não poesia,
e tudo
que não o supérfluo,
hoje
tão secas
que chegam a queimar
ao riso do sol,
e a rachar
ao sopro do céu de abril.

fornalha velha?
ferreiro cansado?
ou não se degola mais
pelo fio da palavra?
o fato é que não se fundem mais versos
como antigamente.

The Sky You Carry

Baby, I got to tell you this,
just don't tell anyone!
I confess that I have never
played in major tones.

'cause it seemed to be
too sunny and colourful for me.

But since I saw the sky you carry
inside your pretty eyes,
I play some happy things like this
and it just look so fine!

Maybe this is
what it supposed to be...

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe you're the reason why I feel my fingers to tingle.

Can I take you by the hand
and never take you back?
Can I think about you while
I'm writing this cute track?

'cause I can't no more
avoid to think what I'm sure!

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe you're the reason why I feel my fingers to tingle.

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe, after all, baby, neither of us is so single...

Deixe pra amanhã o que não se quer fazer hoje

Tudo que vejo o dia todo são papéis.
Papéis que não me servem de nada.
Juro que qualquer rolo de papel higiênico,
de qualquer banheiro,
de qualquer posto de gasolina do mundo,
sujo, e fedido, e desconhecido, e necessário,
vale mais que todos os papéis em cima dessa mesa.

Mesmo assim estou aqui. Sentado de fronte aos papéis.
De fronte ao monitor. Rodeado por carimbos e canetas.
Cercado de gente que pensa a mesma coisa que eu.
Ou ainda pior,
gente que também está angustiada com isso tudo,
mas não pensa em nada disso.
Tem também os que gostam dos papéis,
e dos carimbos, e das canetas,
e das anotações coloridas nos calendários.
Olho pra todos esses fatos e penso:
Por que?

O que me impressiona é que tudo se resolve.
Tem várias coisas que precisam ser feitas,
bem aqui, nos montes de papel em ambos os lados.
Que atitude eu tomei?
Bem, primeiro fui ler Bukowski,
Aí fui buscar mais café.
Me deu vontade de escrever;
O velho safado sempre dá.
Agora vou fumar, lá fora.
Os papéis... amanhã eu vejo.

O Taciturno


Feito satanás, da cruz, se esquivou a vida inteira.
Cismou com a incerteza,
e agiu como se deduz:
Desceu velas com dureza, de maneira bem grosseira.

Se escondeu da tempestade.
Quis pular de trégua em trégua
feito um jovem saltimbanco.
Tão nu quanto uma palavra,
que um poeta descalavra,
só rompeu onde viu flancos, evitando solavancos.
Forjou risos várias léguas,
alegando sanidade.

Um marujo e seu deserto;
Imensidão implacável.
O destino mais que certo
e o sonho impraticável,
ficam como céu e mar, no horizonte, a imbricar.

Solto em vasta insensatez
não topou com a liberdade.
Pra dar fim a tal linhagem, com censura e sem saudade,
fez um risco rente à gorja;
Deu vermelho à paisagem.
Com traçada previsão, foi-se um nobre desta corja
de muitos sem a lucidez
dos poucos com tal coração.