A Brief History of Suffering

“According to Buddhism, the root of suffering is neither the feeling of pain nor of sadness nor even of meaninglessness. Rather, the real root of suffering is this never-ending and pointless pursuit of ephemeral feelings, which causes us to be in a constant state of tension, restlessness and dissatisfaction. Due to this pursuit, the mind is never satisfied. Even when experiencing pleasure, it is not content, because it fears this feeling might soon disappear, and craves that this feeling should stay and intensify. People are liberated from suffering not when they experience this or that fleeting pleasure, but rather when they understand the impermanent nature of all their feelings, and stop craving them. This is the aim of Buddhist meditation practices. In meditation, you are supposed to closely observe your mind and body, witness the ceaseless arising and passing of all your feelings, and realise how pointless it is to pursue them. When the pursuit stops, the mind becomes very relaxed, clear and satisfied. All kinds of feelings go on arising and passing – joy, anger, boredom, lust – but once you stop craving particular feelings, you can just accept them for what they are. You live in the present moment instead of fantasising about what might have been. The resulting serenity is so profound that those who spend their lives in the frenzied pursuit of pleasant feelings can hardly imagine it. It is like a man standing for decades on the seashore, embracing certain ‘good’ waves and trying to prevent them from disintegrating, while simultaneously pushing back ‘bad’ waves to prevent them from getting near him. Day in, day out, the man stands on the beach, driving himself crazy with this fruitless exercise. Eventually, he sits down on the sand and just allows the waves to come and go as they please. How peaceful!”

― Yuval Noah Harari, Sapiens: A Brief History of Humankind

O caminho

Dizem para caminhar.
Tu, mais parado que estrela;
útil feito sombra na noite.

E apontam aonde chegar.
Bússolas pro norte da vida;
dedos que desatam nós;
tão perdidos quanto nós.

O destino a se alcançar.
Como quem despreza a estrada.
Se o que importa é chegar,
então é melhor correr.

"Cuide pra não se perder!"
Como se houvesse um caminho.
Como se eu fosse andar
como quem não vai morrer.

O bonde

Pegaste o bonde andando!
Nunca esqueça-te disto!
O bonde vem melancólico
de longe;
de sempre.

Sempre abarrotado de solidão.
Sempre em velocidade incômoda.
E, mais importante,
Sempre indo
reto;
a diante.

Sempre cheio de gente que,
assim como tu,
Pegaram-no andando.

Todos carga inocente.
Todos peso incapaz.
Esse nosso destino:
Seguir complacentes
em velocidade incômoda.
É isso ou é nada.
Só tem o bonde.

Natureza

O contato com a natureza
sempre apequena;
sempre machuca.
A mata arranha,
os mosquitos picam,
o chão fere os pés,
a água afoga,
o barulho das cachoeiras
cala tua voz.

Não somos mais bem-vindos.
A negamos.
Somos desertores;
alheios;
estrangeiros;

Construímos nossos pequenos oásis,
de pedra e eletricidade,
e, tolamente, nos emancipamos.

O Que Restará de Ti (Il Restera de Toi)

O que restará de ti
É tudo aquilo que deste,
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados.

O que restará de ti,
E de teu jardim secreto,
É uma flor esquecida,
Jamais fenecida;
E tudo que deste,
Nos outros, florescerá.
Pois aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

O que restará de ti
É tudo que ofereceste,
De braços abertos,
Numa manhã ensolarada;
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada;
E tudo que sofreste,
Nos outros reviverá.
Pois aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

O que restará de ti;
Uma lágrima caída,
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração.
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade;
E tudo que semeaste
Nos outros germinará.
Pois, aquele que perde a vida
Um dia a encontrará.

Il Restera de Toi - Michel Scouarnec
Tradução livre de Miguel Falabella

Êxodo

Deserto é só certeza.
É caminhar inconsciente.
É impossibilidade.
É morte inesquivável.

A cidade é no deserto.

Mas cidade é miragem.
É caminhar distraído.
É impossibilidade esperançosa.
É morte impossível.

Tem gente que vê um outdoor e corre feito um beduíno com sede.

Um morre.

O outro se distrai,
Daí morre.

Will

We're the lazy summer.
We're the quiet hounds.
We're retired bank robbers
In a ranch away from town.

We're the hundred years tree.
We stand still alone.
We're the old men on asylums
assuming we've seen it all.

Esperança

O que queremos, afinal? O que tanto queremos que nos faz levantar todo dia e tentar ser alguma coisa sempre meio igual a sempre ou sempre meio diferente de sempre ou sempre meio normal que quer ser meio esquisita ou meio esquisita querendo ser mais normal, ou... Tá me entendendo? O que tanto queremos? A gente acorda todo dia! E vai! Todo dia! Mas vai aonde?

Uma pessoa de 80 anos foi! Todo dia, cara! No total ela foi 29.200 vezes! 29 mil!!! Ela tentou vinte e nove mil vezes! Mas tentou o que? O que é que esse senhor tanto quer, gente?


Onde Satanás afrouxou a gravata

A estrada os apunhalava com mais.
O horizonte nunca havia os entregue tanto.
O novo cortava por entre seus cabelos;
encharcava seus pulmões.
E eles riam de medo.

O que era mito, já não é.
Feito paisagem entre cortinas,
se exibia, solene, um mistério.
E o fim de tudo parecia como aquilo.
E eles riam de coragem.

Que dia!

Um estrondo e cacos voando fizeram com que caísse, das alturas dos seus pensamentos  (não tão altos assim), sentado no banco do carro. Já estava quase no trabalho e não tinha sequer se dado conta, até que um acidente de trânsito o sugou para a realidade. Acordou, beijou o mulher, disse bom dia/te amo/qualquer-coisa-dessas-razoáveis, lavou o rosto, lavou os dentes, mijou, colocou o pau pra dentro da calça, aquela última gotinha molhou sua cueca, saiu sem tomar café como de praxe, ligou o carro, ligou a música, abriu o portão, fechou o portão... Mas não notou nada disso. Porque era o que fazia sempre, desde que se lembra. Na verdade nem lembra, nem pensa, nem importa. Mas era o que fazia e faria. Sabia disso, mas não pensava, não importava. Importar até importava, mas não pensava.

Passou lentamente pelo acidente. Não por segurança, mas porque queria ver. É bom ver acidente. Ele gosta. Passou pelos carros batidos, ninguém morto. Acelerou um pouco mais porque precisava chegar ao trabalho logo e contar para as pessoas. Era um homem de sorte, havia visto um acidente. Algo havia acontecido em sua vida. E não foi meramente "passar por um acidente", ele viu, na hora que aconteceu! Diria "Eu vi bem na hora!" Que dia, amigos! Que dia!