Pensas se esconder muito bem, suponho. Pensas que sua atuação é esplendorosa, por ser aplaudida; comentada. Ainda esforça-se pra sustentar o personagem? Ou já chegou no ponto em que confunde-se? Em que não sabe mais se é ventríloco ou boneco.
Não me importa seu figurino. Esse vestido, ou essa gravata. As cores no seu rosto, esse sorriso amarelo, andar orquestrado, seus acenos à ninguém. Quando olho, ainda vejo sangue e carne. Vejo dor e medo. Fuga. Vejo a você. Mesmo que talvez nem você se veja mais.
Os muros que erguemos, nos quais pusemos tanto tempo e energia, são altos, e só me dão pena. Porque escalá-los é cada vez mais difícil, mais cansativo, demorado. É um trampo. Que às vezes parece mais fácil ficar apenas andando entre as muralhas, só.
Mesmo sabendo que atrás de cada uma delas está alguém. Só mais um alguém, igual a nós, que quer ser olhado nos olhos; ao menos por uma tarde inteira.
Passara tempo de mais na adega. No porão impecavelmente limpo repousavam seus vinhos, e ele. Estava obcecado. Morreu a mulher no sofá da sala. Ficou lá. Os gatos foram embora. Ficou o velho; e os vinhos. Tinha medo de abri-los e achar vinagre. Mas tinha vontade.
Um dia abriu um. Era vinagre. Abriu todos. Vinagre. Chorou no chão, ensopado em vinagre. Lamentável.
Decidiu subir.
Lá fora, ouviu um menino gritar: "Que alívio!"
Saiu.
Um dia abriu um. Era vinagre. Abriu todos. Vinagre. Chorou no chão, ensopado em vinagre. Lamentável.
Decidiu subir.
Lá fora, ouviu um menino gritar: "Que alívio!"
Saiu.
Quando olhei para aquele senhor, me deu vontade de chorar. Sempre me dá. Não só para aquele, específico, afinal, nem o nome dele eu sei. Mas, em geral, velhos me dão vontade de chorar. Não chorar "chorar", sabe? Mas aquele nó na garganta que a gente chama de vontade de chorar, que acontece sempre que se sente um misto de empatia e compaixão pelo outro. É bonito ver timidez, insegurança e um pouco de medo nos olhos de alguém com mais de 70. Faz a gente se se sentir mais vivo, mais seguro e menos oprimido pela necessidade de ter que ser foda.
Aux. Administrativo
O vento soprou gelado, 18ºC, através das entranhas do edifício, desembocando neste antro; lar da ansiedade e da vontade de estar em casa. Nas paredes, o vislumbre do futuro. Post-it's balançavam aos montes, como cartomantes com vestidos de todas as cores, verde, rosa, azul, amarelo... Que nessa dança vertiginosa mostravam horizontes... Ligar 9934-5596... Avisar Pedro que Monica ligou... Remarcar consultas da odonto... Todos destinos imutáveis, rebolando a sua frente. Embora o ambiente transpira-se segurança, com todas essas placas dizendo "entre, ambiente climatizado", com mapas de risco mostrando que o risco ali era mínimo, a angústia ainda se fazia presente. O teclado era sua única salvação. Era a válvula de escape, que fazia aquela engrenagem sentir-se um pouco mais humana.
Otimismo/Pessimismo
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| Forma de vida avançada ensinando suas crianças a ler. |
( ) Esta imagem restaurou minha esperança na humanidade.
(X) Esta imagem destruiu minha esperança na humanidade.
Dualidade
- Onde estavam todas essas ideias?
- Escondidas atrás dos ideais que as separavam.
- E onde fica o trevo entre a beleza e a tristeza?
- Onde é sua morada?
É lá que a coisa toda acontece;
a alquimia.
Onde transmutam-se sentimentos opostos.
Onde as contradições se dão "bom dia".
Onde deus e o diabo fazem as pazes.
E sobram, então, somente as sensações,
em seu estado mais chorosamente vivo e bonito.
Fluxo de consciência
As covas estão cheias de pessoas que mudaram o mundo de alguma forma, sem nem sequer saberem disso. Muitas vezes, as consequências das nossas atitudes demoram a aparecer. Então, quando me perguntam se eu acho que escrever vale de alguma coisa, digo que acho que não vale. Mas que vai acabar valendo.
A necessidade de reconhecimento sempre acaba por nos alucinar. Ficamos na expectativa pelo "joinha". Na expectativa por ver nossos comentários sendo positivados. Nosso ego clama pelo mimo. E nós acabamos como zumbis, atrás - não de cérebro - mas talvez de aceitação; de fãs. É isso. Queremos fãs. Fãs mimam, fãs gostam de tudo de antemão. E quem quer fã, quer idolatria. Quer ser ídolo. Para sentir que é mais; que é foda. E tudo isso é medo de morrer; amanhã. Morrer amanhã, e não ver seus atos culminarem em consequências satisfatórias às suas expectativas zumbióides.
Conselho
Criar uma vida que reflita seus valores e satisfaça sua alma é uma rara conquista. Em uma cultura que incansavelmente promove avareza e excessos como a boa vida, alguém feliz fazendo seu trabalho excêntrico, se não subversivo. Ambição só é compreendida se tem o objetivo de subir ao topo de alguma ladeira imaginária do sucesso. Alguém que pega um trabalho pouco exigente porque proporciona o tempo para perseguir outros interesses e atividades é considerado pouco confiável. Uma pessoa que abandona a carreira para ficar em casa e cuidar de seus filhos é considerada alguém que não está vivendo todo seu potencial. Como se um título e salário fossem as únicas medidas do valor humano. Vão dizer de cem jeitos, alguns sutis e muitos não, para continuar escalando, e nunca ficar satisfeito com onde você está, quem é e o que está fazendo. Há um milhão de jeitos de se vender, e eu garanto que você vai ouvir sobre eles. Inventar seu próprio sentido para a vida não é fácil, mas ainda é permitido, e eu acho que você vai ser mais feliz com esse problema. (Bill Watterson)
"Talvez você esteja sentado, em uma mesa de escritório, olhando para a tela do seu computador e pensando em todas as coisas que está deixando de fazer, nos sacrifícios que tem de manter para se divertir um pouco em busca de alívio pela rotina que leva."
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| If you have to ask, you'll never know. (Armstrong, L.) |
O sol desceu tão bonito no horizonte;
mudou de cor;
mudou, também, a cor do céu;
ficou maior, alaranjou e foi embora;
deixando o breu, também bonito.
Extasiado, tomei uma triste decisão.
Ao invés de deleitar-me, apenas,
em tamanha beleza,
quis saber os porquês do sol,
quis saber os porquês do laranja,
quis saber os porquês do breu,
quis saber os porquês...
Quis saber...
Achei todas as respostas.
Mas agora,
todo pôr do sol parece-me mais com qualquer uma dessas bugigangas que a gente compra no camelô.
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