Degradê

Quem me fala sou eu, que converso comigo;
eu, meu amigo, do silêncio no ouvido.
Fala sem pudor, sem o muro da língua,
onde esbarra, por vezes, a verdade sucinta
que, à mim, acenta, e acalenta, 
mas que no ouvido d'outro dói,
e lateja atrás dos tímpanos;
por mais que não seja mentira,
vira
completa ziquizira.

Quem me dera saber se, algum dia, alguém
vai saber o que eu sei, mas não disse à ninguém.
Saberão, ao menos, da moça dos olhos degradê
Nos quais perdi passados
e achei futuros; com muito gosto.
Procurei. E quem diria?
Eu que, em mim, e comigo, pensei,
rezei e esperei, escondido me achei
onde não pensava estar:
Nos olhos de alguém; que não era eu.
Esvoaçar
  
Ei, moço do giz
do jaleco?
do apagador?
É, o senhor! Por favor,
sou criança,
não me aborreça,
não me enlouqueça.
 
Me deixe ser antes que,
assim,
como você,
eu me esqueça.
Me solte, de pincel na mão
não pregue minhas asas no chão.
 
Pinta, tinta;
leve, voa.
Pinga, pinga;
escorre, assoa.
E assovia quando ver
o passarinho que quer ser.
 
Voar!
Que não seja o que me dizem que é,
que de impossível já me basta ser pra sempre;
coisa de gente, que mente, mente, mente;
inteligente que não sente, sente, sente
me passa o pente, mãe, que eu eu cresci,
e cabelo, como eu, tem que estar no lugar.
 
E agora,
que o vento já não sopra mais?
Crescer é viver, não sonhar.
É pentear, e, não mais,
deixar esvoaçar.
AMO

E eu que achava que não sabia mais chorar.
Escrevi até uma música, que depois virou poema, sobre isso.
Escrevi para a minha avó, depois do enterro dela.
Escrevi pedindo desculpas por não saber chorar.
Hoje eu chorei; fiquei surpreso; mas não muito.
Hoje me senti mal.
Mal de um jeito que não me sentia a tanto tempo que nem me lembro quando foi a última vez que me senti assim.
Estou com ânsia de vômito, azia, aftas. Não posso mais beber destilados. É um fato. Preciso assumir.
Estou com dor de cabeça. Muita. Parece que uma artéria vai explodir antes que eu acabe esse texto.
Amo ela. Estou com saudades dela. Mas não consigo ficar perto dela. Sendo que ela é quase minha vizinha.
Maldito mundo moderno! Mundinho merda! (Chico Anísio - Monólogo Mundo Moderno)
É meio dia, estou sem fome. Completamente sem fome.
Tenho sede. Fato.
Não consigo trabalhar. O que não é lá também um mal negócio se for ver.
Só escrevo.
Porque me faz sentir útil, vivo e provido de sanidade mental.
E amo.
Estou dominado pelo amor. Dominado. Ele é a rédea e eu o cavalo manso.
Sou sentimental. Sou mesmo. Sempre fui e continuarei sendo até o dia que houver esse corpo na Terra.
Já aprendi a importância do amor, da verdade e da capacidade de aceitar quem você é. Isso já me vale toda a vida. Sem dúvida.
Amo muito. Muito mesmo. Isso sim é fato. Preciso da presença, do afeto. Senão me sinto assim. Mal.
Hoje é um daqueles dias que você não sabe se diz que não queria ter acordado, ou se queria que acabasse logo.
Não sei.
Estou mal. Depressivo. Estou num momento no qual um suicída se deliciaria.
Exagero?
Só quem pode saber se é, ou não, exagero, sou eu.
Mas estar morto não resolveria nada.
Resolveria tudo na verdade. Mas nada ao mesmo tempo.
E o que eu quero é tão simples.
Tão simples, meu Deus!
Mas hoje em dia o simples sai caro.
É complicado simplificar.
Coisa de gente.
Entende?
Sei que entende.
Hoje, inclusive, só quero isso. Amor. Como o saudoso Tim Maia sempre pregou.
Amor e só. O resto é pó.
Bonito isso.
Mas agora, explicitamente agora, só queria dar uma sumida e fumar um cigarro. Nada muito dramático, coisa de alguns minutos apenas.
É isso.
Só preciso chorar mais um pouco, dormir muito e, depois, sumir.
Aí voltarei, purificado, filtrado, de novo, para a vida.
Muito amor à todos que são capazes de sentí-lo, assim como sinto.


(:
Paz
 
Paz?
Não pode haver paz.
Não neste século.
Ou, pelo menos, não essa paz.
É fácil falar em paz antes de se levar um tapa na cara.
É fácil falar em paz antes do seu pai levar um tiro na cabeça.
É fácil falar em paz antes da sua filha ser estuprada por um padre.
Que o acaso o livre disso.
Antes você do que eu.
Mas que o acaso o livre disso.
Mas se não livrar, aí você terá o alvará para falar em paz.
E não vai ser fácil.
Isso, tendo em vista só esse contra-ponto da paz.
Que é a violência.
Mas ninguém pode estar em paz nesse mundo.
Não dependendo do relógio, do cartão de crédito e da geladeira.
Não.
De que entendemos, nós, de paz?
Nós.
Hipócritas.
Pseudo-vivos.
Falsos-humanos.
Cidadãos. Direito e deveres. Que babaquice.
Escritores que garimpam no asfaldo à procura de palavras.
Atores esmiuçando obras de séculos passados à procura de futuro.
Músicos. Quê músicos?
Nós sofremos da pior das pestes e pragas que já assolaram a Terra.
Sofremos do pior dos cânceres.
Do pior dos sofrimentos.
Sofremos sem ter do que sofrer.
Mais.
Sofremos por não ter do que sofrer.
Somos a mentira.
A geração inútil.
O tempo perdido.
Para o acaso, um descaso.
Para o tempo um atraso.
E Deus, de nós, faz pouco caso.
Predadores de meia tigela.
Sem presas, sem garras, sem asas.
Nos gavamos do cérebro.
Mas nos cagamos de medo usá-lo.
Peixe de aquário que, no relfexo, pela difração
se vê tubarão.
Tubarão que se afoga em mar raso.
Pá furada.
E falamos em paz.
Que venha o caos, irmãos.
Então, depois, falaremos em paz.
Oração

Às vezes, tudo o que desejo é que o acaso me ofereça, novamente, a possibilidade de me sentar no chão de uma sala de estar, com um bom amigo e alguns instrumentos, pra que, espiritualmente e físicamente conectados, que é algo que sinto falta nas relações interpessoais contemporâneas, deixemos que os sons, simplesmente, aconteçam, despretenciosamente, sem perspectiva alguma e sem que seja preciso definir nada, nem ao menos conversar à respeito; que apenas deixemos que os sentimentos aflorem de onde quer que seja que estiverem aprisionados, seja da alma, do coração, dos sonhos ou do estômago, trasncorram   pelo nosso corpo e transpassem à barreira do imaginário para o real por intermédio do nosso organismo, e, assim, soem pelo tempo que precisarem soar, e façam com que a vitalidade flua o quanto puder fluir. Pra mim, não há maior exaltação à vida e à minha própria existência do que um momento como este.

Que nunca me falte a consciência de quem sou, e do que sou feito.
Os Nós

Silêncio conta, sem falar,
o que palavra alguma faz saber;
mas pra ter, é preciso remar
e desatar, do cais, o nó.
Mas do lado dele andei,
talvez até de mais, não sei;
aprendi o que tenho em mim,
e pra levar a vida isso basta.
O que vou levar daqui
é o que vou dar, e só
e de mãos dadas, assim,
tem é que ser melhor.
Amor conta, sem falar,
o que palavra alguma fez saber;
mas pra ter, foi preciso remar
e desatar, do cais, o nó.
Vento/Pipa

Coração é pipa de papel.
Menino no chão, olhos no céu.
Com um medo, inocente,
que se o vento, derrepente,
bater forte, feito amor,
a linha se arrebente,
e deixe, descontente,
de vida sem cor e sem sabor,
um menino, tristonho, na areia;
com seus sonhos, perdidos, no vento.
E, de vento, pipa entende;
sabe bem que essa brisa
não precisa de muito pra virar vendaval.
Pipa voa, e quem está no chão espera
que, de consolo, não reste só a poesia.
Diga lá

Agora até na rua eles me acham.
Não só me acham, mas me param e me pedem
o que não quero responder.
Tudo bem, diga lá, não tenho pressa;
Porque pra mim futuro não é coisa que se messa com tempo;
Não é coisa que se indague assim, à todo momento.
Mas diga lá. Solta sua conversa rala,
que eu não gagueijo ao som da tua fala;
Diga lá, irmão, qual a sua indagação?
Qual o seu conselho para a minha salvação?
Diário

Hoje, no acostamento, sentado nessa pedra de gelo que é a noite, enquanto fingia estar sendo observado ao mesmo tempo que via a cidade dormir por de trás da fumaça do cigarro, percebi, mais uma vez, daquele mesmo jeito natural, porém surreal, das outras vezes, que dispensam as palavras  apenas porquê não existem palavras pra descrevê-lo, que a vida é feita de detalhes tão simples e pequenos que beiram o ridículo, mas que, juntos, moldam grandes momentos. Estava realmente pronto para viver intensamente esta noite, mas voltei pra casa e dormi; amanhã é outro dia, e espero ansiosamente (só eu sei como espero ansiosamente por isso) que eu acorde tão lúcido quanto estava ao dormir, sobre a forma com que o acaso escreve essa nossa pequena frase, que é a nossa vida, e sabe encaixá-la da forma mais poética possível nesse texto maior que ninguém, nunca, lerá.
O Apego

Não se luta mais por sobrevivência nessa nossa realidade, essa realidade de quem pode ficar em casa, numa cadeira, escrevendo ou lendo blogs. Nenhum de nós irá morrer de fome, ou de frio, ou algo desse tipo; claro que nada se generaliza, mas você sabe do que eu estou falando. Nossa luta é psicológica, nossa luta ó contra o ócio, contra o tédio, além disso lutamos, apenas, para termos alguns luxos na vida. Lutamos para ter grana, não se pode negar. Somos uns putos, dependentes de dinheiro, viciados em comprar tudo, e depois nos viciamos naquilo que compramos. É claro que não é no "dinheiro" que pensamos, mas sim em uma coisa que se tornou sinônimo de dinheiro: Segurança. Afinal morremos de medo de nós mesmos, morremos de medo que as pessoas não nos vejam com bons olhos, então compramos merdas inúteis para saciar nossa falta de segurança, auto-afirmação, e amor. Afinal, como li ontem em algum lugar que vale a pena ler, "A gente sempre pode confiar num escorredor ou num fogão de quatro bocas ou num pano de prato, eles são absolutamente incapazes de sacanear a gente. Essa lealdade das coisas sem vida realmente me enternece profundamente, é mesmo um negócio comovente, dá vontade de chorar. O amor deve ser mais ou menos isso." E assim a gente se apega as coisas, cada vez mais. Temos medo de nos apegar as pessoas, porque, geralmente, depositamos uma boa parcela de confiança naquilo que nos apegamos. Se você coloca uma garrafa de vodka na geladeira, você pode sair de casa, numa boa, e nem sequer pensar na porcaria da garrafa, porque você confia profundamente na sua geladeira, e sabe que, quando voltar pra casa e abrir a geladeira, uma luz se acenderá e sua garrafa de vodka estará lá, gelada, esperando que você a beba. Uma geladeira não pode sacanear você, uma pessoa sim. Mas isso não tem nada haver com amor.